close
NOTÍCIAS

Boi de capim brasileiro versus boi de confinamento americano: Qual é melhor?

revista-638

Um assunto recorrente nos EUA é o “grass-fed beef”, aquele bovino que não é confinado com dietas ricas em grãos, como de praxe por lá, mas terminado em pastagem. Ano passado, o editor da revista Bovine Veterinarian, John Maday, fez um interessante apanhado sobre esse tema no contexto americano.

Baseado nas considerações dele, vamos tentar fazer um paralelo com a realidade brasileira. Essa discussão traz a oportunidade de entender melhor as possibilidades de posicionamento da carne brasileira, quais seriam nossos principais desafios e nossas eventuais vantagens.

Fazer essa comparação neste momento parece oportuno em função das recentes importações de carne americana feita por frigoríficos brasileiros, assunto tratado no artigo “Importação de Carne Bovina” mês passado por Alcides Torres.

Esse texto complementa e detalha algumas informações ali contidas.

No artigo de Maday, ele comenta que, apesar dos animais serem confinados por 120-150 dias no final da vida, antes disso ficam de 8 a 16 meses em pastagens, o que equivale a cerca de 70% de sua vida. Na Tabela 1, essa informação foi checada. Para tal usou-se valores do próprio texto de Maddy, dados gentilmente levantados e cedidos pelo “Livestock Marketing Info. Center” (Lakewood, CO) e do Departamento de Agricultura dos EUA. Para os dados brasileiros, as fontes são a ABIEC (2015) e um interessante levantamento publicado em 2014 sobre confinamento no Brasil.

Foi estimado que bois americanos confinados ficam 76% da sua vida em pastagens, nas quais ganhariam 61% do seu peso de abate. De maneira diametralmente oposta ao que ocorre no Brasil, 90% dos animais abatidos são terminados em confinamento nos EUA, ou seja, mais de 35% das quase 11 milhões de toneladas de carne americana seriam produzidas com base em milho.

No Brasil, apenas 13% dos animais abatidos são provenientes de confinamentos. Eles permanecem confinados por 83 dias e são abatidos com 24 meses de idade, portanto, passam praticamente 90% da vida em pastagens. Assim, a pecuária brasileira é 99% baseada em pastagens, quando o critério é o tempo. Na Tabela 1, ainda somos informados que o animal no Brasil ganha tipicamente 1/4 do seu peso no confinamento, o que permite estimar que 98% das 10 milhões de toneladas de carne seriam produzidas com base em capim.
TABELA 1.
Dados para comparação dos sistemas de confinamento no Brasil e nos EUA.

Quanto ao uso de dietas baseadas em grãos, Maday ensina que ele começou no cinturão do milho, como uma forma dos produtores reduzirem os riscos, usando o milho para engordar bois nos anos de preços baixos. Segundo ele, com o tempo, a carne assim terminada, passou a ser a preferida dos americanos e a prática se estabeleceu. Também contribuíram para o uso dessas dietas ricas em concentrado nos EUA: 1. seus elevados ganhos; 2. sua maior eficiência e 3. a produção limitada das pastagens durante o inverno na maior parte daquele país. Os animais, portanto, estariam prontos mais cedo para o abate e com uma carne mais ao gosto dos consumidores americanos.

No Brasil, confinar animais começou motivado pelo aproveitamento do grande diferencial de preços safra-entressafra que havia nos anos de 1980-1990. Eles começaram em regiões mais próximas dos mercados consumidores, longe das áreas produtoras de grãos que, além de já relativamente mais caros em termos de relação de troca com a carne, ainda tinham o aumento do preço por conta do frete. Por causa disso, eram mais baseados em dietas com porcentagens elevadas de volumoso. Hoje a tendência é crescente no uso de dietas com cada vez mais concentrado, pelos mesmos dois primeiros motivos citados no parágrafo anterior que as fazem comum nos confinamentos americanos. Atualmente, também, os confinamentos têm aumentado mais em regiões agrícolas ou próximas a elas.

Ao contrário do esperado pela maioria das pessoas, a intensificação do ganho com grãos tem suas vantagens ambientais, ao exigir menos animais, menos área, menos alimento e menos água para cada quilograma de carne produzida em relação ao mesmo quilograma de animais terminados em pastagem. A emissão de gases de efeito estufa por quilogramas de carne produzida também é menor. Maday comparou a carne produzida em um acre (0,40 ha) com milho ou com produção de forragem: seriam produzidas 5,5 vezes mais carne com o primeiro, mesmo, segundo ele, considerando boas produções de forragem.

Por outro lado, uma vantagem que a produção em pastagem tem em relação à confinada é a fixação de carbono no solo pelas raízes das forrageiras. Esse é um ponto importante cujos recentes resultados de pesquisas brasileiras têm mostrado ser uma grande vantagem da produção em pastagem na questão da mitigação de emissão de gases de efeito estufa. No Brasil, além do confinamento, ainda temos a opção de produzir carne em sistemas de integração com agricultura e/ou silvicultura. Resultados obtidos em sistemas integrados mostram aumentos de produtividade ainda maiores do que os relatados por Maday ao comparar confinamento e pastagem nos EUA. Usando essas tecnologias e melhorando nosso aproveitamento dos pastos, temos uma produção que: (1) tem apelo às pessoas que se preocupam com o bem estar animal, ao deixa-lo mais tempo no pasto, (2) que beneficia o produtor, pois é mais barata, e (3) que, ao enriquecer a carne com uma série de compostos provenientes das forragens (vitaminas, pigmentos, compostos aromáticos, etc.), resulta em um produto com mais sabor ao consumidor.

Nos EUA, a diferença entre os preços de carne “grass-fed” e convencional é muito grande: No varejo, mesmo em situação que as carnes “grass-fed” estavam com grandes descontos, o sobre preço seria de 50% para filés e 250% no caso de hambúrgueres. Em nossas terras, o “boi alimentado à capim” é o padrão e a carne “gourmet” das churrascarias de grife e das boutiques de carne é que é a minoria. Apesar dos diferenciais de preço nem sempre serem tão expressivos entre a carne do açougue e da boutique, é suficiente para fazer desse produto uma opção que serve principalmente o nicho representado por brasileiros de alto poder aquisitivo.

Após admitir que o “grass-fed beef” pode aumentar nos próximos anos, em função do encarecimento dos grãos, Maday finalizou seu artigo afirmando que não tem nada contra sistemas alternativos de produção de carne, seja ele carne natural, orgânica, localmente produzida ou produzida a pasto. Todas são oportunidades para serem aproveitadas para quem consiga diferenciar seus produtos e vendê-los nos mercados premium. Todavia, para a maioria dos consumidores americanos a carne convencional, terminada em confinamentos com alto grão, ofereceria a melhor combinação qualidade, valor em geral e preço.

Poderia também finalizar, dizendo que, da mesma maneira, a produção de carne de mais alto valor agregado no Brasil está à disposição de quem quiser se enquadrar nas exigências para atender esse mercado, o que costuma incluir uso do confinamento e de uso genética de animais europeus, mas há mais do que se falar sobre isso.

O mais importante é que, para a cadeia da carne brasileira como um todo, o real benefício seria conseguir produzir carne de qualidade (especialmente, no tocante à maciez) baseando-se fortemente em pastagens e com animais adaptados. Há várihas vantagens: (1) ter menor custo de produção, (2) ser produzida mais de acordo com a natureza dos animais, o que tem sido cada vez mais valorizado pelo mercado consumidor urbano, (3) ser mais saudável (no mínimo, por ser mais magra) e (4) ser mais saborosa.

Por fim, uma diferença importante no contexto de importação de carne dos EUA: ser produzida sem uso de hormônio exógeno. Esse assunto, por si só, já renderia outro texto. Para não cansar o caro leitor, vai apenas um breve resumo do tortuoso enredo que cerca uso e proibição de hormônios no Brasil e em outras partes do mundo: Todas as evidências apontam que seu uso é seguro, mas a percepção extremamente negativa do consumidor brasileiro sobre o tema faz com que uma campanha para liberar seu uso acabe sendo uma propaganda muito negativa para o setor, com resultados imprevisíveis e potencialmente bem danosos em termos de mercado.

Hormônio é um ponto que pode levar a sérios questionamentos contra a importação da carne americana. A Comunidade Europeia, por exemplo, segue a lógica que é injusto com os empreendedores locais importar um produto feito sem seguir as mesmas exigências do produto nacional. No caso dos hormônios, por exemplo, eles dão uma vantagem competitiva aos produtores americanos, ao melhorarem a eficiência alimentar e/ou ajudar a terminar o animal mais rápido do que nas mesmas condições no Brasil, o que é flagrantemente injusto. Antes de sair brigando por conta disso, contudo, deve-se avaliar bem o movimento e ouvir pessoas tarimbadas na área, pois, em questões de comércio internacional, o caminho aparentemente mais justo e lógico nem sempre leva ao melhor resultado para as partes envolvidas.

O que a comparação destes dois universos distintos de produção de carne bovina mostra é que, dependendo do critério escolhido (bem estar animal, maciez, preço, etc.), teremos um vencedor diferente. Contudo, temos uma grande vantagem: é bem mais fácil produzir carne similar à americana no Brasil do que os americanos produzirem carne em pastagem. Enfim, o deus do churrasco é brasileiro!

Por Sérgio Raposo de Medeiros
Publicação Scot Consultoria
Adaptação foto: Imprensa AGPNP